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Privação do sono e Amamentação [RELATO]

Privação do sono e Amamentação [RELATO]

   

Não é nenhuma novidade que com a chegada do bebê as noites não serão mais como antes; existe o processo da a adaptação do novo mundo, pois até então aquele ser humano tão pequenino, habitava em um lugar escuro, quentinho e barulhento. A fome, que se manifesta a cada três horas, ou menos. Logo mais vem as tão temidas cólicas, quando seus pequenos intestinos estão em processo de amadurecimento. E por aí vai..., mas por mais que se estude sobre o assunto, ninguém está preparado de fato para sacrificar noites praticamente inteiras de sono. Um estudo recente publicado na revista científica Nature, mostrou que não dormir o suficiente tem um impacto no cérebro semelhante ao do abuso do álcool. Dr José Cipolla, neurobiologista e professor da USP, explica que a privação de sono afeta o sistema nervoso central de forma a diminuir o desempenho durante o tempo que permanecemos acordados. É um principio diferente do álcool, mas os efeitos são semelhantes: dificuldade de compreensão ou raciocínio, lapsos de memória, diminuição dos reflexos. E como seria possível cuidar de um recém-nascido com todos estes problemas?

Sabemos que cada bebê possui uma personalidade, e que cada um desenvolve sua maneira de agir de acordo com a herança genética herdada dos pais. Mas ninguém está isento do processo de adaptação que ocorre após o nascimento, por isso é imprescindível ter ajuda e uma rede de apoio. De acordo com a psicóloga Silvia Sueli de Souza Maia, professora do curso de Psicologia da Universidade Univeritas/UNG, os custos emocionais ligados à depressão pós-parto fazem com que a mãe interaja menos com a criança. E podem surgir devido a transtornos do sono, ocasionando ansiedade e sentimentos de incapacidade de lidar com a nova rotina.

Um termo muito usado por várias mães com suas vastas experiências é: “vai passar, não parece, mas vai”. Realmente, esta fase inicial é um misto de sensações e dificuldade, e parece não ter fim. Aqui vai um pouco da minha experiência com noites mal dormidas, foi um longo percalço até chegar à solução. E eu, como várias mamães recém-nascidas, não acreditava que “iria passar”, mas olha só, passou.

Aos 25 anos engravidei, não planejei, pois ainda estava na faculdade. Embora quisesse muito ser mãe, não me sentia ainda preparada. E hoje vejo que nunca estamos de fato. Sonhava com um paro natural, sem intervenções desnecessárias. Mas a verdade é que, mesmo lendo a respeito, na prática foi muito diferente e acabei optando por algumas intervenções que não prejudicaram em nada, muito pelo contrário, com uma equipe médica muito respeitosa minha bebê nasceu saudável e linda do jeito que era pra ser. Entrei em trabalho de parto de 10 de agosto, dia que antecedia o dia dos pais, mas a fase ativa do parto ocorreu na segunda, 12 de agosto quando fui para o hospital as 5h da manhã com cinco de dilatação. Fiquei doze horas em trabalho de parto, e as 16:57h meu raio de luz veio ao mundo, com um parto lindo, mesmo não tendo sido 100% natural, nasceu Isabel. As primeiras horas são de êxtase total, o sentimento de poder e plenitude tomam conta de uma forma inexplicável. Algo que a um ano atrás nem pensávamos agora era a realidade mais palpável e feliz que estávamos vivendo.

Na primeira noite da minha Isabel neste mundo eu não queria dormir e só ficar olhando pra ela, queria gravar pra sempre na memória seu rostinho minúsculo, suas expressões, ainda sem identificar com quem se parecia de mais ou de menos, seus traços perfeitos, suas primeiras horas de vida. Imagino que isso seja algo comum. Se eu soubesse o que estava por vir, eu teria dormido sem dúvidas, e acredite, este é o melhor conselho que recebemos durante a gestação e o que menos damos atenção. Minha filha dormiu a noite toda, como um anjinho que toda mamãe pede a Deus. Durante o dia recebi visitas e ela permanecia naquele sono, acordando brevemente para mamar a cada três horas. Na noite seguinte por volta das oito horas Isabel embarcou em um choro sem fim, interruptamente, a noite toda. Até que sua voz, seu choro delicado não saía mais, pois nela não haviam  mais forças. Eu a colocava no peito a cada 3 horas seguindo as orientações das enfermeiras, mas não havia nada que a fizesse parar de chorar. Revezávamos eu e meu marido, mas ambos não dormiam de preocupação com tanto choro aparentemente sem motivo. Chamamos a enfermeira durante a madrugada que viu a possibilidade de ser gases, logo, não teria o que fazer, apenas algumas massagens e esperar passar. Eu ali, com tanto medo e preocupação com minha filha, no fundo não acreditava no que ela havia nos falado. Sabe aquele instinto de mãe que tanto falam? Ele existe, e me dizia que era pouco mais complexo que isso. O dia amanheceu, e ela ainda chorando, pedi ao meu marido que fosse até a farmácia e comprasse uma chupeta, quando na verdade eu só queria um tempo sozinha para chorar. Naquele momento sozinha, desabei junto com ela, que ainda chorava, mesmo mostrando sinais de puro cansaço, tão pequena... Quando ele voltou demos a chupeta a ela que pegou com muita força, algo que estranhei muito, mas deixei. Só que eu ainda não estava convencida. Quando deu meio dia, ela ainda chorava e já estava indo para 16 horas aquele choro incessante, eu fui até o berçário com ela e relatei o que havíamos passado, a enfermeira prontamente pediu para visualizar meus seios e constatou que não estava saindo o colostro, o alimento da minha filha não estava chegando a ela por mais que ela sugasse com sua pega que era perfeita, estava ali diante de nós o motivo de tanto choro. Logo me culpei, mas hoje penso que não havia como saber, pois era tudo ainda muito novo, que experiência eu tinha? Ela tomou a formula (que eu tanto temia), que tinha a quantidade da metade de um copinho de café, e eis que dormiu quase 8 horas seguidas. Fomos para casa naquela mesma tarde, e continuamos com a formula a cada 3 horas, mas sempre tentando dar o peito antes, para ver se havia algum sinal de colostro ou leite, ela chorava eu pressionava mesmo sentindo dor e nada.

No dia seguinte o tão esperado leite desceu e comecei a livre demanda. Consegui passar por todo aquele processo de amamentação, sem machucar os seios ou qualquer outro problema, graças a Deus eu amamentava agora, meu maior desejo se concretizava. Os dias foram passando, e pouco mais de quinze dias, Isabel começou com as cólicas e briga com o peito. Não dormia mais 3 horas seguidas como no início e sempre chorava de forma desesperadora. Ficava no peito quase o tempo todo e só dormia no colo. A Exaustão foi tomando conta de mim de uma forma severa. Me via sozinha e um mar sem fim chamado ‘não sei mais o que fazer’. Eu sempre fui o tipo de pessoa que dorme muito, desde criança. Nunca entendi pessoas que acordam as 7 da manhã para ficar em casa, e muito menos quem está bem-humorado a essa hora. E eu me encontrava vivendo meu pior pesadelo, a privação do sono. Foram 6 noites sem dormir dez minutos, foram 6 dias inteiros cuidando daquele bebê que eu mal conhecia. A cada mamada uma briga com o peito, choro e mais choro, e os pequenos cochilos no colo. Eu não pensava direito, não conseguia raciocinar em uma conversa, apenas chorava, rezava e chorava cada vez mais. Estava perdida, me sentindo sozinha, com pensamentos terríveis aos quais me causaram muita culpa depois. No meio de tanto cansaço resolvi ligar para o pediatra, contar e ver a possibilidade de dar formula novamente como nos primeiros dias, precisávamos descobrir a origem do problema, ele logo foi contra, e garantiu não ser esta a variável que fazia a Isabel chorar tanto e não dormir sonos que duravam menos de 30 minutos. Mesmo discordando, me deixou livre para seguir com a ideia. Hoje, penso que se eu tivesse alguma ajuda naqueles dias, não haveria nem cogitado esta possibilidade, me culpei muito, sentia vergonha de contar para as pessoas, fui julgada e questionada, mas a verdade é que nos meus piores dias, quando mais eu precisei de uma rede de apoio, ou de alguém para ficar algum tempo com minha filha para que eu pudesse dormir, ninguém estava lá. Por isso, caro leitor ou recém mãe, não se culpe, só você sabe o que se passa. Ainda durante aquela semana, antes de dar a mamadeira pela primeira vez, meus seios começaram a formar alguns caroços, o leite já não descia como nos primeiros dias, e a dor de amamentar ficou insuportável. E já não doía mais, tinham se passado 45 dias, eu havia lido o suficiente para saber que se estava doendo era porque algo estava errado. Só eu sei a batalha que travava a cada mamada, choro e mais choro da Isabel, e eu agora sentindo a dor do leite começando a empedrar. Enfim tive coragem e mesmo com todos aqueles pensamentos de autojulgamento, demos a mamadeira. Minha filha dormiu seu primeiro sono de 6 horas seguidas desde que chegamos da maternidade, outra criança estava ali. Combinei com o pediatra que daria a mamadeira apenas a noite no ultimo horário de mamar e que durante o dia seguiria com a amamentação normalmente. Mas na prática não funcionou, as brigas continuavam com o peito, o choro incessante durante o dia, os cochilos apenas no colo.

Eu não estava produzindo leite como antes, decorrente da má alimentação, falta de liquido e privação de descanso daquela semana terrível. Leitora, se seu desejo é a amamentação ou relactação, seguem algumas recomendações que precisam ser seguidas: Coma de forma saudável, beba muita água (ao menos 3 litros por dia), descanse e tenha ajuda. Os dias foram passando e fomos introduzindo a mamadeira cada vez mais, o que era frustração de não conseguir o que era o meu maior desejo, se transformou na satisfação de ver minha filha bem. Ela passou a ficar até três horas acordada de forma tranquila, ainda dorme sonos curtos durante o dia, mas já tem uma rotina que fielmente conseguimos seguir, e a noite seu soninho de seis horas é sagrado.

Os benefícios do leite materno são incontestáveis, é importantíssimo priorizar. Ainda sinto uma ponta de tristeza por tudo que passei, mas minha filha apresenta um quadro perfeitamente saudável, e está ganhando peso e crescendo de acordo com sua idade, nem mais nem menos. Eu vi uma nova luz, os piores dias passaram como dizem que vai passar,  nova mãe e filha nasceram, a privação de sono teve fim, estava ficando para trás meu maior pesadelo,  e também surgiu uma nova família, pois, infelizmente, este tipo de problema afeta de forma significativa um casamento. Hoje ela já está indo para seu terceiro mês de vida, da sorrisos lindos, balbucia sons, deu sua primeira gargalhada, e encontrou sua mão. Seu desenvolvimento é perfeito. E no final, o motivo de tanto choro e noites não dormidas, era apenas fome.

 

Comunidade Alô Bebê
Luna Karine Rossetto Cortiane
Luna Karine Rossetto Cortiane Seguir

Bancária, 25 anos. Casada, mamãe da Isabel.

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